quarta-feira, 9 de maio de 2018

SANGUE E MEDULA





Algumas pessoas estavam sentadas em cadeiras até macias, mas nada atraentes. Era como uma sala de espera, mas ao ar livre, sob um toldo. Ainda bem, pois o tempo estava bem quente. Eu também estava em uma delas, levemente agoniado, como sempre. Quando estou apreensivo, tenho a mania de ficar mexendo a perna direita o tempo todo, algo que poucas pessoas reparam em mim.

Me chamaram. Sentei de frente para uma moça, tinha a pele parda como a minha e um cabelo curto, visivelmente pranchado. Ela vestia um jaleco por cima de uma camisa vermelha. Não reparei no seu nome, já que meu pé começou a se mexer novamente e prestei atenção somente nisto. Ela me fez algumas perguntas, pediu meu documento e tive que soletrar o nome da minha rua, o que já se tornou comum, pois ninguém acerta de primeira aquilo.

Depois ela me direcionou para outra mulher, mas esta não parecia tão solícita. Na verdade estava entediada. Eu não sou nenhum perito ou algo do tipo em expressões faciais, mas se tinha algo que dava para ver na cara dela era o tédio. E eu não sabia exatamente o porquê. A mania da perna voltou de novo, e desta vez fiquei em dúvida se era por conta da presença dela ou da máquina de aferir pressão arterial em meu braço. Já não sou dos mais fortes e todo aquele ar pressionando meu braço não era legal.

Ainda tinha algum tempo, minha ficha era a dezesseis. Tomei um café e comi um pão com manteiga meio amassado, do mesmo jeito dos que levo todos os dias para o trabalho. Não fumei naquele momento. Voltei para o local, mas não me sentei nas cadeiras em baixo do toldo, fui um pouco mais adiante, até um ônibus estacionado. Os adesivos eram em tons de azul, mas estavam desbotados, talvez por conta das constantes viagens.

Entreguei os papeis que a primeira mulher havia preenchido para uma moça de óculos no ônibus. Ela me pôs sentado numa cadeira de aço, como as de bares dos anos noventa, mas sem o nome de alguma cerveja e o glamour que só o ferrugem traz ao amarelo. Depois uma outra, alta e magra como essas modelos que se vê por aí, me levou para uma sala pequena. Fez várias perguntas, mais até do que a primeira. Perguntou até com quantas pessoas eu fodi em um ano. Depois me liberou.

A mulher de óculos me levou para uma cadeira e mais uma apareceu, mas esta era loira e pequena. Parecia que só havia mulheres ali, exceto o motorista, um gordo que estava jogado no banco do motorista. Ela me pôs deitado numa cadeira, estendeu meu braço e limpou com diversos produtos. “Abre e fecha a mão”, me disse. Prendeu tubos em outros tubos e coisas em outras coisas, até que veio com uma agulha tão grossa que parecia uma caneta, mas que doeu menos do que eu imaginei.

Mas então algo me veio à mente: quanto temos que não podemos compartilhar? Não sou um sujeito rico, muito pelo contrário, mas sempre há quem precise mais, quem tenha menos. E isto não é algo que está em nossas mãos, não de maneira direta. Lembrei do tédio que a mulher que aferiu minha pressão estava sentindo. Quantas vezes ela fazia aquilo todos os dias? Mas quantas vezes ela fez o que eu estava fazendo?

Cada vez que eu abria e fechava minha mão eu pensava que, talvez, tudo seja uma questão de consciência e percepção; talvez as pessoas precisem entender que com o pouco se faz muito. Que não é só o dinheiro que vira a mesa de alguém. E eu não tenho como afirmar pelas outras pessoas sentadas sob o toldo, ou pela alta e magra que me perguntou sobre minhas fodas e outras coisas, mas, quando aquela agulha grossa como uma caneta saiu do meu braço, me senti bem melhor do que antes de preencher aquele formulário e soletrar o nome da minha rua.

Hoje pela manhã me tornei doador de sangue e medula.

Alan de Sá,estudante de Jornalismo - 8º semestre

terça-feira, 6 de março de 2018

MULHERES ESCRITORAS: O QUE HÁ DE MELHOR NA LITERATURA



Os homens que se segurem diante da nova safra de mulheres na literatura brasileira e de outras plagas, com histórias de vida fascinantes e trabalhos tanto em prosa como em versos. São escritoras jovens, outras idosas mesmo, e é isso que me entusiasma! Mas a idade cronológica não tem a menor importância, diante do talento que se revela tardio.

É sempre tempo de mostrar o que se faz e o que se fez desde menina e só agora é apresentado ao público leitor. É o caso de Marcia Vinci, 84 anos, que começou a compor versos ainda garota e só agora com o incentivo da família e amigos, publicou o primeiro livro “Poemas do Sim e do Não”.

Nascida em Poços de Caldas, sul de Minas, e já há algum tempo residente em São Paulo, não por acaso ela escolheu Salvador para publicar o seu livro, que tem o selo da paraLeLo 13S, pequena editora da livraria Boto-Cor-de-Rosa. Um espaço que tem a proposta de recuperar a vontade de ter contato com boa literatura, ouvir música, conversar com amigos durante um café e, principalmente, se atualizar sobre os novos lançamentos do mundo das letras. Livraria super antenada, está situada na rua Marquês de Caravelas, Barra.

Em entrevista à revista Época, Marcia descreve as lembranças das férias, que passava com a irmã mais nova em são João da Boa Vista, interior de São Paulo, na casa da tia Quita, uma costureira. É dessa fase o poema que escreve sobre a tia, Quita: Tempo que não fluía/entre a novena e o bordado/tinha um boudoir/de dama recatada/com um quê/ de puta disfarçada. Já nessa época, Marcia revelava um espírito contestador, uma menina inquieta, corajosa e rebelde.

Nas férias, ela e a irmã ajudavam a tia nas costuras e à noite iam para a novena, onde a tia orava fervorosamente e se confessava todos os dias. Essa era a rotina, só quebrada quando as duas, impacientes, fugiam da igreja e ficavam na pracinha paquerando os garotos.

Depois do sucesso da publicação, que mereceu elogio entusiasta de Milena Britto, editora da paraLeLo 13S, e grande aceitação do público leitor, agora ela promete não mais engavetar poemas. Esperamos que a promessa se cumpra.

Uma freira feminista

Outra escritora de história palpitante é Maria Valéria Rezende, 75 anos. Como missionária já deu a volta ao mundo quatro vezes, alfabetizando adultos e crianças, trabalho que também desenvolveu no interior do Brasil. Foi amiga de Fidel Castro, já fumou maconha para ver como se sentia um viciado que ela cuidava. Morou na China, no Timor Leste, na Argélia e no México.

É de sua autoria o romance “Outros Cantos”,recentemente editado pela Alfaguara, 152 páginas. O livro lhe conferiu o prêmio São Paulo de Literatura (o terceiro troféu que recebeu em 2017). Já lançou quatro romances e uma coletânea de contos. Santista de nascimento, Maria Valéria atualmente mora em João Pessoa (PB), onde divide uma casa com mais quatro freiras.

Quando era menina as pessoas costumavam lhe perguntar se queria casar ou ser freira. Escolheu fazer os votos “pois achava mais divertido”, diz ela. Estudou em colégio de freiras e nunca pensou em se tornar escritora. O hábito de escrever começou nas viagens, quando não tinha nada pra fazer em lugares desertos.

Nessa nova etapa de produção, ela entende que os homens estão ficando para traz. “Eles estão se dedicando à literatura da brochada, o mimimi deles”, afirma aos risos a freira rebelde. Feminista assumida, Valéria agora  procura resgatar e promover escritoras brasileiras. Para tanto, se dedica ao Mulherio das Letras, grupo que ajudou a fundar e que reúne mais de 5 mil romancistas, contistas e poetas, aqui no Brasil e no exterior. “São as mulheres que estão escrevendo o que há de melhor”, resume a escritora.

Escritora que se revela

E o que dizer de Fernanda Torres?  Inteligente, precoce, aos 13 anos já atuava. Cresceu nas coxias dos teatros acompanhando os pais Fernando e Fernanda Torres. Frequentando esse ambiente ela fez sucesso facilmente na TV e no teatro. Antes dos 30 anos tinha já uma carreira de atriz  consolidada. Então resolveu virar a mesa. Estava cansada! Enveredou pela literatura, para se reiventar e mudar de rumo, a princípio escrevendo crônicas para jornais e revistas.

“Fim”, o seu primeiro livro foi publicado em 2013, pela Companhia das Letras, sucesso garantido, o que lhe rendeu mais de 180 mil exemplares vendidos e foi traduzido para sete línguas. Convenhamos, bem acima da expectativa para uma iniciante! O romance conta a história de cinco velhos amigos do Rio de Janeiro, que à cada dia sentem que a vida está chegando ao fim. Diante desse fato inevitável, os personagens recordam paixões e traições do passado, manias, inibições, vergonhas e covardias.

Imbuída dessa vontade de fazer diferente, usando o humor como referencial, Fernanda interpretou, simultaneamente, a Vani de “Os Normais” e a Fátima de “Entre Tapas e Beijos”. Essa disposição dá bem a dimensão da versatilidade da atriz, que passeia com facilidade entre a TV, o teatro, o cinema e a literatura.

Atualmente, Nanda, como é conhecida na intimidade, se prepara para a volta à TV, na série “Sob Pressão”, que estréia em junho, e acaba de lançar o segundo livro, sob o sugestivo título “A Glória e seu cortejo de horrores”, também editado pela Companhia das Letras, 216 págs. O romance a colocou no patamar das escritoras mais vendidas no Brasil. Desde que chegou às lojas em dezembro de 2017,  a publicação  só ganha elogios.Foi destaque na revista The New Yorker e será traduzido para o francês.

Construindo com maestria os caminhos do tempo de um ator-, o que conhece muito bem-, o protagonista começa no teatro experimental, conhece a fama no cinema e como galã de novelas, até chegar à  extrema decadência.  O personagem chega ao fim de linha, num folhetim bíblico, enfrentando uma platéia de pessoas bêbadas e sonolentas, experiência que a própria Fernanda vivenciou, ao subir ao palco para enfrentar espectadores desinteressados.

Num país que lê pouco como o nosso, é estimulante o surgimento de novas escritoras, como essas que só engrandecem a literatura brasileira, nos encantam e nos emocionam. Esperamos que o público leitor desperte  a curiosidade sobre o que elas têm a nos dizer.

Socorro Pitombo, jornalista

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

AS VOLTAS DO MUNDO: UMA HISTÓRIA DE ENCONTROS E DESENCONTROS



Quanto menor a cidade do interior, maior a celebração do santo padroeiro. A própria Feira de Santana, em tempos idos, já registrou inesquecíveis festas em louvor a Senhora Santana. Assim, não foi diferente na pequena e rústica Lagoa Grande, com suas novenas, missas, batizados e crismas, promessas, confissões e outras demonstrações de fé em homenagem a Santo Antônio.

A festa coincidiu com a chegada à cidadezinha de uma moça elegante e de rara beleza, que destoava de todo aquele cenário. Em meio à multidão que chegava dos mais variados recantos para os festejos do santo e se aglomerava na única pracinha do lugar, a figura da desconhecida ao deixar a boleia do caminhão, vestida com luxo e apuro, chamava a atenção de todos.

É só o começo do livro "As Voltas do Mundo”, de autoria de Jailton Batista, que por muito tempo atuou como jornalista em Feira de Santana. Com 424 páginas, o romance tem o selo da Editora Kelps – Goiania-GO e foi lançado em Feira no ano passado, no casarão Froes da Mota.

A narrativa prende o leitor de imediato e vai revelando a história da formosa Francisca, a Tita, e mais tarde conhecida como Chiquinha, que ainda na adolescência fora seduzida por um fazendeiro de meia idade, Pedro Mesquita, proprietário de vastas extensões de terra, que se estendiam desde o Recôncavo até o sertão, onde o seu pai trabalhava como capataz na fazenda Serra da Esperança.

Esse episódio vai nortear a narrativa do livro, envolvendo o leitor em uma série de acontecimentos, como o afastamento da família, a prostituição, a vida de uma menina que cresce enganada em relação a sua origem, entre outras situações que o autor explora com uma linguagem fácil e atraente, característica dos bons jornalistas.

Entre os personagens principais, destacamos a própria Francisca e Pedro Mesquita, já mencionados, além de Isabel. A construção psicológica e social de cada personagem é um ponto de destaque da estrutura narrativa do livro. As personalidades antagônicas das duas grandes mulheres da obra arrebatam o leitor. A inocência de Tita, o jeito simples de moça da roça, que nem se dava conta da sua beleza, contrasta com a inteligência, elegância e persistência de Isabel, que, com a sua independência profissional, encarna o “empoderamento” feminino, tão em voga na atualidade.

Outro aspecto que chama atenção no livro é a forma como a narrativa vai delineando os personagens secundários. São figuras emblemáticas de cidades interioranas do sertão: Zuleido, o velho Zuca, dono de um bordel, mas também devoto de Santo Antônio; frei Montalvão, um grande consultor para assuntos de toda ordem ou, como descreve o autor, uma “velha raposa eclesiástica”; Chico Sabedoria, o locutor do serviço de auto-falante de Lagoa Grande, exímio noticiador e poeta de primeira.

Também há de se ressaltar a dançarina do circo de touradas, Carmen Soarez, com seu corpo esbelto que deixava a plateia entusiasmada. Sem esquecer o velho Jurubeba, que reunia curiosos na farmácia de Anphilófio, para contar sua peleja contra uma caipora, durante caçada, facão em punho, mata adentro. A façanha levava as pessoas que o ouvia ao delírio!

A grande capacidade de descrição em detalhes não só das situações e seus contextos, mas dos lugares e ambientes é um dos atributos da narrativa de Jailton Batista. Tal preciosidade em apresentar as circunstâncias nas quais os acontecimentos se desenrolam faz com que o leitor se transporte para os eventos que compõem a história. Com a responsabilidade dos bons jornalistas, ele se debruçou com afinco sobre a pesquisa, consultando e ouvindo histórias e causos de pessoas como Everaldo Maia e o trovador José Souza, conhecido como José Esposo, para enfim construir o texto.

Esse é o segundo livro de Jailton Batista que também é autor de “Duas mulheres, quatro amores e uma guerra civil”, seu romance de estreia, editado no Brasil e em Angola. Com uma prosa coesa e sensível, ele agora nos acena com a possibilidade de mais uma publicação, desta vez centrada em Feira de Santana

Socorro Pitombo, jornalista.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

TABULEIRO DA MARIA, UMA VIAGEM AO PASSADO



"Ler Tabuleiro da Maria, da escritora Madalena de Jesus, nos marca profundamente. Escritora só? Não. Professora e muito mais. Um currículo tão rico que chega a ser invejável. Fiquei sua fã".




Desde o lançamento do “Tabuleiro da Maria”, em março do ano passado, projeto que fez 2017 ser tão especial, tenho recebido manifestações de carinho e comentários sobre os textos publicados. Todos muito generosos e alguns surpreendentes. Como o da advogada Denize Marina Almeida, leitora atenta e conhecedora da maioria dos personagens retratados, que fez uma viagem no tempo lembrando passagens da própria vida através do conteúdo do livro. A título de esclarecimento, o professor citado no final é Joel Derivaldo, também advogado, já falecido. 


Madá, Ler Tabuleiro da Maria não somente emociona como também nos enleva e enriquece mais ainda os nossos conhecimentos. Tudo que li é difícil traduzir com palavras. Sem invadir privacidade você nos envolve, nos remete ao passado e com muito respeito fala sobre todos e demonstra uma amizade tão fiel que é gostoso demais de se ler.

É maravilhoso e confortante ler o que você escreve. E aos pouquinhos, vamos nos identificando, nos envolvendo com seus belíssimos textos. Sabe Madá! me encontrei em muitos capítulos. Por exemplo: “NÃO QUERO SER CUMPRIMENTADA NO DIA DOS PAIS”. As circunstâncias me trazem lembranças, muitas lembranças, mas uma me marcou muito: Meu pai se foi quando tinha quarenta e dois anos. Deus o levou para a “sua” Glória, e eu tinha apenas oito anos. 

Quando li Tabuleiro da Maria voltei ao passado, um passado que orgulha, envaidece e aguça a memória. Entretanto nada mais me emocionou do que “RECORTES DA MEMÓRIA”. Seo ZINHO, com certeza, era na vida fenomênica um líder, um verdadeiro filósofo. As raízes do corpo de seo Zinho poderiam não levá-lo a lugar algum, exceto ao coração das pessoas que tiveram a felicidade de conhecê-lo. Foi uma pena eu não tê-lo conhecido.

Quem lê Tabuleiro de Maria, aprimora os conhecimentos. No meu caso, me fez também voltar ao passado quando você lembrou com muita propriedade Carlo Barbosa. Ele foi colega na Escola primária de minha irmã Deuza, era Escola Anexa à Escola Normal de Feira, que funcionava onde hoje funciona o CUCA.

Depois vi outros mencionados e destacados como o fotógrafo e artista Reginaldo Pereira, (REGI) amigo e irmão em Cristo do meu inesquecível e saudoso irmão Joel. Juntos fundaram, no final dos anos 1970 (78/79) e início dos anos 1980, o Boco Hora, juntamente com Nilza, filha de seo Miguel (Miguel da Casa de Ervas), cuja concentração era na Praça da Matriz. Naquela ocasião não se falava em “abadá”, era mortalha, estandarte e um relógio pintado e marcando meia noite.

E Dimas? Será Dimas Oliveira filho de professora Hilda? Se for, foi meu colega na escola Anexa, (CUCA) curso primário. E Gil Mário (foi entrevistado ontem pela TV Subaé) será o neto de Dr. Áureo Filho? Fomos colegas no Colégio Santanópolis.

Voltei ao passado e vi na memória Silvério Silva. Esqueci do show. Depois lembrei. Egberto Costa, que nos deixou precocemente, foi meu colega no Colégio Santanópolis. E Marcus Morais? Idem. Trabalhamos como professores no Colégio Ubaldina Régis, (Tanque da Nação) e ele também foi professor do meu filho Joel Sobrinho, no Colégio Antares.
Voltei ao passado e isto muito me honrou. Fiquei imensamente feliz. Talvez nem precise mais fazer “terapia” depois da leitura desse livro: Minha escritora famosa e minha psicóloga querida. Te amo.

E quando pensei que a minha memória estava completa de tanta riqueza e novidade do passado exposta por você, li FIGURAS QUE SE ETERNIZARAM e encontrei Adelson Brito, lembrei dos figurinos extravagantes sem perder a beleza;  Lucílio Bastos, irmão gêmeo de Lucíndio, que moravam no bairro Tanque da Nação, bairro importante pela abundância de tanta água, havia um tanque bem no meio da rua, com tampão, que abastecia os reservatórios das pessoas que moravam no bairro, e  por conta da “civilização”, foi soterrado e coberto por asfalto. Certamente o gestor daquela época não pensou no futuro.

E Ivanide? Vou lhe contar um episódio: Nos anos 2003 ou 2004, eu ensinava no Colégio Ubaldina Régis e a Ilustre Ivanide foi convidada pela diretora da Escola para proferir uma palestra. Tema: Desigualdade racial, falta de políticas públicas etc... Até esse dia, nunca tinha visto o “Ubaldina” tão silencioso. Todos se calaram para ouvir a palestra e no final fizerem perguntas. Tenho certeza que para ela foi um dia feliz, apesar de estar acostumada a fazer palestras por esse “brasilsão” afora.

Lembra que seu professor de Desenho, um jovem estudante de Direito da UFBA, que era meu irmão e você aprendeu a gostar dele? Amo você.

Quanto ao seu livro: PARABÉNS!

Os personagens devem considerar-se imortais.

Denize Marina de Almeida

4.11.2017, terça feira.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

#SOMOSTODOSUM


 “Tira o pé do chão!” Sempre que eu ouço esse chamado me vem à cabeça a figura dele. O baiano de Santo Antônio de Jesus que ficou conhecido no Brasil inteiro e em vários outros países pelo sucesso Milla, nos anos 90, não só ordenava seus seguidores como ele próprio tirava os dois pés do lastro do trio, do palco, ou da rua. Onde quer que estivesse. E ao mesmo tempo! Os passos aparentemente fáceis se transformaram na marca registrada de Netinho, ou Ernesto de Souza Andrade Junior, um verdadeiro ícone do axé music.


Talvez seja por isso que vê-lo cantando em um programa de televisão, tempos atrás, sentado em uma cadeira, tenha me emocionado tanto. A voz também não tinha o mesmo vigor de outros carnavais e micaretas. Mas ele estava lá, emanando uma força tamanha que causava estranheza em um mundo tão descrente de tudo. Eu pensei: Que menino corajoso! A coragem que o fez sair do hospital quando tudo indicava o contrário. A coragem para prosseguir fazendo o que mais gosta: cantar. E viver.

Sempre fui sua fã e, mais que isso, uma admiradora silenciosa e contida. Fã do cantor que embalou multidões, festejou e foi festejado ao longo de sua trajetória. Admiradora do homem que aproveitou a dor para se tornar um ser humano melhor. O risco de perder uma vida vitoriosa e ainda promissora o fez lutar, movido por uma fé inabalável. Fé no que virá, como tão bem ensinou o mestre Gonzaguinha. Lição que Netinho parece ter aprendido, a ferro e fogo, é bem verdade.

O que virá, certamente, ele já conhece muito bem. O sucesso. Não tem como ser de outro jeito. Basta ver a letra de sua nova música, que traz o sugestivo título #somostodosum, e ouvir o som inconfundível da batida baiana que faz vibrar todos os corações do universo. “Cada pensamento é uma espécie de oração”, canta Netinho, ao nos fazer um convite irrecusável: “Vamos ser sol/Vamos ser farol”.

Madalena de Jesus

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

APRENDENDO E FAZENDO: MOSTRA CIENTÍFICA NA SEMANA DE ENGENHARIA DA FTC











Casa de bambu, exatamente como aquelas da Indonésia que vemos em filmes, escada de metal, telhados com formatos inusitados, variadas estruturas de concreto, revestimento, alvenaria ou simplesmente simulações de paredes rachadas e obras mal acabadas. Esses são apenas alguns exemplos dos trabalhos apresentados na Mostra Científica que encerrou a VI Semana de Engenharia da PFT Feira de Santana.

“Tudo em escala real”, atestou o professor Rafael Oliveira, que também foi um dos palestrantes da programação do evento. Ele considerou que os alunos surpreenderam na realização dos trabalhos. “Da concepção ao acabamento, aplicando os conteúdos na prática”, explicou. Na avaliação da professora Heni Mirna, as patologias das construções foram muito bem representadas pelos estudantes. “Um grande desafio”, resumiu.

O sentimento que permeou a mostra foi de superação. Os estudantes Júlio César e Juliete Alves, ambos do 7º semestre, trabalharam com estruturas de madeira – aquela casa de bambu – e o resultado não poderia ser melhor. Alexandre Neto, que cursa o 10º semestre, se empolgou tanto com o próprio trabalho como com os dos colegas. “É uma simulação do real”, disse. “A ideia é a mesma, os obstáculos também”, completou Amanda Sodré Silva, do 8º semestre.

Para o coordenador do Colegiado de Engenharia Civil, professor Ernesto Neiva, o que ficou evidente foi o empenho dos alunos, não somente na mostra como em toda a programação da VI Senge. Ele ressaltou o nível dos palestrantes, dentre eles egressos da Instituição e nomes de destaque no mercado. A programação constou ainda de minicursos sobre Dosagem de Concreto, Leitura de Projetos e Produção de Biodiesel.

O evento aconteceu entre 7 e 9 e reuniu mais de 400 participantes, superando as expectativas da comissão organizadora, integrada por formandos do curso, com a coordenação do professor Rodrigo Jorge Moreira. Ele avaliou que a participação dos estudantes em eventos como esse é fundamental para a formação profissional, principalmente pela possibilidade de contato com o que está acontecendo na área.

Durante três dias, além das mostras, divididas em áreas específicas da Engenharia Civil, os participantes da VI Senge tiveram acesso a seis palestras com temáticas variadas, desde empreendedorismo e acesso ao mercado de trabalho, como infraestrutura e técnicas de construção de viadutos. Aconteceram ainda oito minicursos, também abordando os diversos aspectos da área.

Madalena de Jesus

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

HERANÇAS AFRICANAS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO


Diálogos entre Brasil e Angola, o português d’aquém e d’além-mar é o título do livro que será lançado nesta quinta-feira (19), às 16h, no hall da reitoria da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Organizado pelas professoras Eliana Pitombo Teixeira e Silvana Silva de Farias Araujo, traz o selo da UEFS Editora e tem 268 páginas.

Os trabalhos reunidos na obra volume se propõem observar o que resultou do contato do português com línguas africanas no Brasil e em Angola. A obra é também um elogio à beleza e à força da mãe África.

Para as organizadoras, compreender o chamado português brasileiro passa necessariamente pela consideração da presença, no Brasil colonial, de povos africanos e suas línguas, particularmente dos escravos trazidos da África Central, onde se localizam os atuais países da República do Congo e Angola. É importante ressaltar que a presença desses povos foi numerosa nos anos Seiscentos, exatamente no período em que estava começando a se formar o português brasileiro.

Eliana Pitombo Teixeira é doutora em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Letras e Linguística pela mesma Universidade. Professora Adjunta aposentada da UEFS, tendo atuado na Graduação e Pós-Graduação. Concebeu o projeto de pesquisa Em Busca das Raízes do Português Brasileiro, cujo objetivo é comparar o português falado em Luanda-Angola com o português vernacular brasileiro.

Silvana Silva de Farias Araujo é professora Adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana. Atua no PPGEL-MEL/UEFS, onde coordena o Mestrado em Estudos Linguísticos, desde o ano de 2016.  Também coordena e participa de projetos de pesquisas sociolinguísticas voltados à formação do português brasileiro. Foi presidente da Associação Brasileira de Estudos Crioulos (ABECS), durante um biênio.

Socorro Pitombo, jornalista