sexta-feira, 24 de março de 2017

TABULEIRO DA MARIA: UM LIVRO SOBRE A ALMA HUMANA



“Crônicas são sobre fatos do cotidiano, mas estas falam sobre a alma humana”. Esta é a definição do livro Tabuleiro da Maria, para o jornalista e escritor Marcondes Araújo que aceitou a irrecusável tarefa de selecionar 50 textos tecidos com o talento de quem possui histórias no olhar. O título reúne narrativas sobre pessoas e situações que integram o cotidiano de Feira de Santana e da própria vida da autora, a jornalista Madalena de Jesus. A diversidade de temas é o ponto alto da publicação, que prende a atenção pela escrita fácil e precisa. O lançamento acontece no dia 30 de março, a partir das 18h30, no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA).

O Tabuleiro da Maria traz histórias publicadas entre 2010 e 2017 no blog do mesmo nome, também assinado pela jornalista, professora graduada em Letras com Francês pela Universidade Estadual de Feira de Santana e pós-graduada em Docência em Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), instituição onde também atua como assessora de comunicação.

Para a também jornalista Socorro Pitombo, a coletânea é trama de ternura, afeto e entusiasmo. “Ao se debruçar sobre essas páginas, os leitores poderão constatar que Tabuleiro da Maria tem muitos encantos, a começar pela narrativa leve e comunicativa da autora que, a partir de agora, passa a integrar o seleto grupo dos escritores”, registra a amiga de vida escolhida pela autora para assinar o prefácio do título.

Sobre a autora

Madalena de Jesus atua no jornalismo há quase quatro décadas. Ao longo da trajetória se tornou uma referência; são muitos prêmios (Troféu Imprensa de Feira de Santana, Troféu Jornalista Arnold Silva por quatro anos consecutivos e o Prêmio Juarez Bahia de Imprensa por duas vezes, dentre outros) e experiência em vários órgãos de imprensa em Feira de Santana e outras cidades da Bahia. Destaque para o Jornal Folha do Estado, como editora de política, Revista Panorama e Jornais Folha do Norte e Feira Hoje, este já extinto há alguns anos. É, também assessora de Comunicação da Câmara Municipal de Feira de Santana.

Beatriz Ferreira
Notre Comunicação

quinta-feira, 2 de março de 2017

A MAGIA DO TRAJE: A APARÊNCIA NO CARNAVAL


Por Renata Pitombo Cidreira


Reprodução | Prefeitura de Veneza

Já é Carnaval! Momento em que as manifestações explícitas de alegria tendem a expressar, através de uma ideia quimérica de liberdade, as tensões constitutivas de nossa identidade. Mas será mesmo que o espírito da verdadeira fantasia e do jogo da imaginação ainda permanece como o alicerce dessa que é considerada a maior festa popular do mundo? Quando viajamos no tempo e nos reportamos a um dos mais antigos carnavais, o de Veneza, que data do século XII ou XIII, nos indagamos se o espírito que mobilizou essa festa ainda se faz presente nas manifestações contemporâneas?

O Carnaval de Veneza se caracteriza pelo uso intenso de máscaras e figurinos que tentam reproduzir o estilo dos nobres que viveram nos séculos XVII e XVIII, ou os modelos apresentados pelos personagens da Commedia Dell’Arte – representações teatrais muito comuns na Itália e por toda a Europa do século XVI até a metade do século XVIII, as quais celebrizaram personagens até hoje cultuados como o pierrô, a colombina e o arlequim.

O fato é que de lá pra cá muita coisa mudou. Alguns pesquisadores afirmam que, inicialmente, o carnaval de Veneza teria surgido em comemoração a uma vitória militar, outros, por sua vez, defendem que 1296, o Senado veneziano formalizou o carnaval, ao declarar que o último dia antes da quaresma fosse um período de jogos, brincadeiras e diversão pública. No século XIX, quase foi eliminado do cenário europeu e ao longo dos anos foi ganhando novos contornos, é verdade. A partir da década de 1980 a festa tem sido resgatada com maior vigor e passou a ser fruto do empreendimento pessoal de foliões e, certamente, um elemento parece ter permanecido: o apreço pela fantasia, ou seja, a prática de nos travestirmos através do uso de roupas e adereços que nos remetem a outros personagens.

Famoso pelas tradicionais máscaras, o Carnaval de Veneza conserva até hoje essa capacidade de nos imaginarmos outros, de incarnarmos e representarmos novos papéis nessa grande cena que o Teatro do Carnaval nos permite protagonizar, tendo como inspiração o Teatro propriamente dito que desenvolve uma trama, num placo, dirigido a uma plateia. E talvez o mais interessante é que podemos ser vários, adotando novos e outros personagens a cada troca de roupa, nos vários dias de festa, retomando a etimologia da palavra persona, que remetia exatamente à máscara de cada personagem.

Embora já com algumas manifestações desde o século XVII, influenciado pelo entrudo português, em terras soteropolitanas, o Carnaval como conhecemos hoje tem início na década de 1950, com foliões dançando atrás de carros de som, as velhas fobicas, posteriormente conhecidos como trios elétricos. Em 2005, o evento foi eleito pelo Guinness Book o maior carnaval de rua do mundo, com 2 milhões de foliões nas ruas que, pouco a pouco, foram se organizando em blocos, com suas camisetas de identificação (os abadás) e uma corda de proteção desse grupo dos demais foliões. Nesta grande festa, o destaque tem sido para os ritmos musicais e as danças e, durante algum tempo, observamos que as fantasias e as máscaras ficaram num segundo plano. Para além das mortalhas e dos abadás que passaram a fazer parte do Carnaval brasileiro, sobretudo, a partir da influência baiana, muitos de nós sentimos falta do uso de trajes mais imaginativos e fantasiosos que essa grande festa nos proporciona. Como ressalta Milton Moura, a indumentária é um elemento extremamente importante para a visibilização das referências de mundos fantásticos que constituem o Carnaval.

Se tentamos recuperar a etimologia da palavra Carnaval, encontraremos mais de uma vertente interpretativa. Ela se origina do latim carne vale, que significa adeus à carne, numa alusão aos dias em que se podia comer carne antes da quaresma; ou ainda, numa outra leitura, significaria despedida do próprio corpo como emblema da identidade, na medida em que nesse período as pessoas são estimuladas a se soltarem e expressarem seus sentimentos. E sabemos, sem dúvida, que assumir a pele do outro nos ajuda a fazer e a sentir algo que habitualmente não faríamos ou não sentiríamos. Como destaca Georg Simmel, o adorno e as roupas ampliam nosso eu, antecipando a disposição performativa do ser humano. Aqui identificamos o papel da roupa e dos acessórios, sobretudo da máscara e da fantasia, como elementos mediadores, dispositivos de passagem entre personagens possíveis.

A máscara e a fantasia, retomam o espírito do Carnaval em deixar correr livre os sentidos e experimentar novas situações. Assim, nos tornamos suscetíveis e receptivos à atuação de novos e outros personagens, na medida em que talvez precisemos buscar a nós mesmos em outros “seres” virtuais, latentes. É a verdadeira magia do outro, através do traje, que invade o Carnaval e a cada um de nós nessa festa!

Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

Texto publicado originalmente no Portal A Tarde, Coluna Pensando Moda.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

COMO OS GIRASSOIS DE VALDIRENE BORGES





É sempre assim... A suposta facilidade de escrever desaparece diante da mistura de sentimentos e pensamentos que a perda do convívio com alguém que amamos provoca. E aqui estou, tentando vencer essa dificuldade, desde a tarde de domingo (12), quando recebi um incontável número de mensagens com a mesma notícia: Adervan cumpriu a sua trajetória entre nós. Novamente o domingo perdeu a cor e a graça – foi assim com outros grandes amores, incluindo meu pai, Amílcar de Jesus, Egberto Costa, Elis Regina e Conceição Lôbo, só para citar alguns.

Mas deixando de lado a coincidência do dia. Será? Sou meio descrente disso. Mas vamos lá. Se final da tarde de domingo já é meio sombrio, pelo menos para mim, a noite não foi melhor em nada. Imagens iam e vinham o tempo inteiro. Lembrei de quando eu conheci Adervan, ainda meio desconfiada pelo seu jeito aparentemente (só aparentemente, descobri logo) sisudo. Foi pouco tempo depois que cheguei a Itabuna, no final de 1992, para integrar a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal.

Nos conhecemos, mas não nos aproximamos de pronto. Não sei exatamente porque. Acho que o senhor do tempo decidiu que quanto mais demorasse para nos tornarmos amigos, mais intensa seria a nossa relação. E foi isso que aconteceu. Nos meus últimos tempos nas terras grapiúnas e depois, quando retornei e fui trabalhar no Jornal Agora, aí sim, conheci a fundo o verdadeiro José Adervan de Oliveira, que aprendi a amar e admirar. Como pai, amigo, patrão. Uma pessoa que descobriu o melhor de mim e me deu o que tinha de melhor.

Me encantei, sobretudo, com o seu jeito de fazer jornal. Primeiro, por destinar um caderno inteiro, que tinha o sugestivo nome de Banda B, para notícias sobre cultura. Um espaço para os artistas de Itabuna e região, uma grande vitrine, sem dúvida. Segundo, pela postura cordial, mas firme com as fontes, especialmente políticos. Entrevista fora do jornal? Nem pensar. Podia ser prefeito, deputado, vereador, secretário... E por último, o tratamento dispensado à equipe. Não importava o que acontecesse na rua, o repórter ou fotógrafo tinha o seu apoio.

Do Agora eu carrego grandes amizades. Começando por Roberta (minha amiga mais que especial), Fernanda e Dona Ivone. Da redação vieram para a minha vida Verinha, Walmir, Waldir, Ulisses... Impossível relacionar todos. Por isso acho mais prudente me concentrar naquele que sempre foi e – quer saber?  - acho que continuará sendo, a grande razão de ser desse projeto grandioso, que ultrapassa a fronteira do jornalismo. Porque eu acredito que, onde quer que esteja, Adervan continuará brilhando, como os girassois do belíssimo quadro de Valdirene Borges, que ele me deu de presente há mais de 15 anos.

Madalena de Jesus, jornalista, radialista, professora e amiga de José Adervan de Oliveira , para sempre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O SEQUESTRO DE SÃO JOSÉ



Na infância, fé, esperança e fantasia são sentimentos que parecem brincar com a criança. Se aqueles dependem da crença, a fantasia é o que torna a vida mais bela de forma descomprometida. No sertão, fantasia seria viver num inverno constante. Assim aprende-se desde pequeno com os mais velhos.

Em algum canto dos Sertões do Tocós, há algumas décadas, todos sabiam que imagem encarnada ou até mesmo quadro de São José não costumavam habitar os nichos ou paredes de apenas um lar durante todo um ano. Elas eram comumente furtadas! Isso! Delito legítimo e chancelado pela fé de quem comete tal crime e de todos que acobertaram o “roubo” do santo em nome do bem comum. Em tempo de seca hostil, somente esse santo poderia acalmar os homens e seus bichos sedentos.

Olhar o oratório vazio ou a marca escura da tinta deixada pelo quadro levado deixava seu dono na falta do santo protetor, mas ele, esposa e seus filhos acolhiam aquela ausência como uma honra e proclamavam a todos o sequestro. Mais um motivo para ter-se fé! Santo “roubado” significava a esperança correndo na bica.

Até São João fica refém de São José. Se até o dia deste santo não chovesse, não haveria milho para festejar nas ladainhas do São João. O milho não cresceria a tempo! Então, as rezas se tornavam constantes e as promessas paralelas ao sequestro do São José. Todas as gerações curvadas suplicando clemência dos céus. E qualquer tom mais escuro no horizonte trazia todos à varanda da casa. Não seria daquela vez... Mas o santo saberia quando, dizia a matriarca. Não muito distante, todos veriam as rachaduras dos tanques cicatrizadas.

Enfim, a chuva cairia! Todos entenderiam que era importante acreditar. O andor finalmente começava a ser adornado pelos bambus que restaram no fundo da casa com as flores que resistiram à seca. Precisava avisar ao dono do santo! O sequestro fora pago pelo próprio sequestrado. Do lar de São José, via-se à noite o movimento harmonioso de tantas velas acesas. Toda ladainha cantada no rojão daqueles pés rachados como os tanques de ainda ontem.

São José voltara para sua casa e com ele, a esperança daquele lar. As crianças poderiam achar aquele ritual estranho, pois seus pais lhes ensinaram que “quem rouba não vai para o céu”, mas começavam a entender que a fé tem razões que a própria razão julgava desconhecer! Fantasia, esperança e fé, depois daquela noite, confundiam-se na cabeça das crianças que dormiam com o cheiro da parafina, do incenso, mas, sobretudo, da terra molhada.

(Jadione Almeida, esperando as trovoadas de 2017)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

SOBRE AMOR, EMOÇÃO E CASAMENTO






Era setembro de 2008, um mês cantado em verso e prosa pela beleza característica da estação das flores – então, é primavera! – quando cheguei à Assessoria de Comunicação da FTC Feira de Santana, pelas mãos da jornalista Socorro Pitombo. Logo conheci Maiany, uma menina linda, no esplendor dos 18 anos, se mais ou menos, muito pouco. Extremamente cuidadosa no trato com as pessoas. Cheia de si, mas sem pedantismo. Compenetrada na medida certa. 

Ela tinha a seu favor, além do frescor da juventude, a capacidade de sonhar, projetar. Queria estudar, ir além. Falava e eu gostava de ouvir, sempre que possível, já que nosso contato se dava durante a labuta diária. Com Daisy, formava uma dupla perfeita no setor de Pós-Graduação da faculdade. Nunca a encontrei de mau humor, mesmo nos momentos mais tensos, como a formação de novas turmas. Professor, aluno e colaborador tratados do mesmo jeito.

O tempo passou, me afastei da instituição por algum tempo, mas sempre tinha notícias de todos. De May, soube que cursava Psicologia. Isso mesmo! A menina que sonhava fez acontecer seu sonho maior. Também mudou de setor, não de emprego. Assumiu o Núcleo de Pessoas, substituindo a igualmente especial Guísala, que herdou da mãe, Terezinha Mamona, a garra e o carisma. E não demorou para chegar à sala de aula, agora como professora.

Eu não tenho certeza, datas não são o meu forte, mas creio que naquele ano de 2008 May já tinha um príncipe em sua vida. Quase um rei, para ser mais exata. Mas somente quando retornei, em setembro de 2015 – eu não disse que é um mês especial? – conheci Jean. Igualmente jovem, tímido, mas sempre com um sorriso sincero pronto para aflorar. Característica que certamente herdou do pai, que no dia do casamento cumprimentou os convidados, um a um, agradecendo a presença.

Sim, eles casaram. May e Jean compartilharam com a família e os amigos o momento mágico em que uniram suas vidas. As bênçãos vieram de um pastor inspirado, que usou uma das mais conhecidas figuras de linguagem da Língua Portuguesa, a metáfora, para instruir os jovens que a partir de então seguiriam o mesmo caminho. Citando a passagem bíblica da transformação da água em vinho, a talha seria o novo lar e o vinho, o amor. “Não deixem a sua talha secar”, disse, repetidas vezes.

Diante de cenas marcantes, a exemplo do choro inesperado do noivo – como assim, não é a noiva que chora? – ao falar de seu amor, os convidados se emocionaram e alguns choraram junto, inclusive eu, esquecendo até das mais de duas horas de atraso do início da cerimônia. Logo ela, sempre afobada para tudo... E depois, só alegria. Instrumentos de sopro, sertanejo romântico e, como diria Mário Neto, bagaceira music.

Teve até pedido de noivado de uma das madrinhas durante a festa. Quem? Daisy, que junto com uma bela declaração de amor do namorado Augusto ganhou o buquê lindíssimo da noiva-amiga. Ah, sim, ainda assistimos um clipe com o ensaio fotográfico de pré-casamento feito pelo competente Deudex, em Cachoeira, cenário que contribuiu muito para a beleza das fotos.

Valeu cada momento. E olha que eu quase desisti de ir, por causa de uma dorzinha no tornozelo que me impediu de usar salto alto... Um detalhe tão insignificante que ninguém percebeu.

Madalena de Jesus, jornalista, professora e amiga dos noivos, agora marido e mulher.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MODA VEGANA: O NOVO ESTILO FASHION



Por Renata Pitombo Cidreira

Estilo sempre foi uma palavra fundamental no mundo da moda. Tanto para o designer que busca um modo de formar personalíssimo e inconfundível, que faz com que seu traço seja reconhecido, como mais recentemente pelo consumidor que começa a assumir uma atitude mais autoral no seu modo de vestir e de compor sua aparência, através de intervenções nas peças ou mesmo a partir das combinatórias utilizadas. Desse modo, nada mais natural do que reconhecer que moda é estilo. Nesse sentido, é que nos questionamos: Qual o estilo da moda atual?

Muito já se falou da “proliferação de estilos” como o estilo, sobretudo a partir da década de 90, quando da apologia da democratização da moda e da liberdade de escolha do consumidor. Um autor como Ted Pollemus, por exemplo, vai nos falar da noção de supermercado de estilos, em que encontramos disponíveis nas prateleiras das lojas de departamento e mesmo nas vitrinas das marcas de prêt-à-porter, inúmeras possibilidades de produtos para consumo, fazendo um paralelo com as gôndolas dos mercados. Desde então, tem disso difícil eleger um estilo predominante na moda.

No entanto, já há algum tempo temos ouvido um discurso e mesmo algumas iniciativas em direção a uma atitude mais sustentável no universo fashion. Várias marcas tem se preocupado em produzir produtos que respeitem o meio ambiente, que provoquem um pouco menos de impacto ao nosso entorno. Dentre essas iniciativas, um estilo de vida tem se insinuado com mais vigor na execução e no consumo da moda vestimentar, incluindo os acessórios: é o estilo de vida e a moda veganos.

Como sabemos um estilo de vida tem relação com nossos valores, nossos costumes, nossas condutas. Dessa forma, o estilo de vida vegano preza uma ideologia em especial que é embasada no respeito aos animais, a partir da declaração dos Direitos dos Animais pela Unesco, de 27 de janeiro de 1978. Tal atitude tem gerado uma preocupação com a produção e posterior consumo de produtos que não sacrifique os animais. Além de excluírem a carne de seu cardápio, os veganos não consomem nada de origem animal. Não apenas na alimentação, mas também na moda, por exemplo.

Nesse segmento, a busca por matéria prima alternativa tem sido uma constante. Materiais sintéticos que imitam pele, como o poliéster e o acrílico; lã acrílica ou sintética, que é produzida a partir da derivação do petróleo; seda artificial, obtida em uma mistura entre poliéster, rayon e outros tipos de fibras sintéticas; camurça sintética, feita a partir de microfibras como o poliuretano e o polyester são alguns exemplos. Também são utilizados o algodão e o rayon, que não exploram animais para serem produzidos. Assim, materiais como couro, seda, camurça e lã passam a ser descartados na indústria vegana, bem como o uso de penas, plumas, pérolas e ossos na fabricação de acessórios.

Dentre as marcas brasileiras que se enquadram na produção da moda vegana, destacamos a Insecta Shoes e a King 55. A Insecta Shoes é uma marca de sapatos e acessórios, de Porto Alegre, e foi fundada em janeiro de 2014. Fabrica seus produtos a partir de roupas usadas e de garrafas de plástico recicladas, contabilizando cerca de 2100 peças de roupa reaproveitadas, 630 kgs de tecido e 1000 garrafas PET. O trabalho da empresa é orientado por valores como o veganismo, o consumo consciente, a redução de lixo, design e conforto. Além, é claro, de muita graça e beleza que estampam os pés que descortinam novas rotas. Já a King 55 é uma marca paulista criada em 2001, que conta com 3 lojas em São Paulo e 80 pontos de venda no Brasil. Suas criações apostam no estilo rocker, tendo, é claro, a música, a arte e a vida urbana das grandes cidades como referências. Produzem peças exclusivas, feitas manualmente e utilizam matérias primas sustentáveis, investindo também no uso de lavanderias que usam a água da chuva para lavar e tingir calças e t-shirts, e na utilização de produtos sem componentes químicos que possam ser nocivos à natureza. Assim, procuram alternativas que preservem a natureza e os animais. Com ousadia, propõem um consumo consciente e sustentável.

Ao adotarmos o estilo vegano na moda, no modo de compor nossa aparência, incorporamos valores como sustentabilidade, consumo consciente, preservação da vida animal, entre outros. Além disso, a própria ideia de estilo como um modo de formar singular e bem sucedido. Transparece, assim, nessas produções que destacamos e, em tantas outras, o espírito da moda em aliar usabilidade e beleza, combinados a uma produção sustentável. A moda vegana é politicamente correta e esteticamente exitosa!

 Peças da marca Insecta Shoes (Foto: Divulgação | Insecta Shoes)


Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros títulos.

Texto publicado originalmente no Portal A Tarde, Coluna Pensando Moda.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O AMOR NÃO TEM NADA A VER COM A IDADE


O texto, de José Saramago, foi publicado pela revista Máxima há exatos 27 anos e certamente foi escrito bem antes. Mas permanece atual e interessante.

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"