quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SUPERANDO TRANSTORNOS MENTAIS E CONQUISTANDO AUTONOMIA PARA UMA VIDA MELHOR








Ao meio-dia o banquete foi servido: feijoada, vinagrete, farofa, arroz e carne. Usando um vestido de flores e um cachecol laranja que a deixou mais elegante, Maria Damasceno Oliveira, 60 anos, se produziu especialmente para a confraternização entre ex-residentes do Hospital Especializado Lopes Rodrigues e que hoje moram em residências terapêuticas.

Foi um reencontro marcado pela emoção. Há anos não se viam. Eles, agora, estão distribuídos em três das onze residências mantidas pela Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Saúde – duas delas estão em reforma. As casas são destinadas a pessoas que, embora sofram de transtornos mentais leves ou moderados, estão em condições de serem reinseridas na sociedade. Elas também possuem autonomia.

O almoço foi promovido em uma destas residências, que está situada no bairro Parque Getúlio Vargas, onde moram sete mulheres. No encontro provaram que nem a distância e nem o tempo foram capazes de apagar da memória a fisionomia uns dos outros. A amizade de longos anos, formada do convívio diário em um hospital psiquiátrico, estava mantida.
Sorriram e se abraçaram, numa demonstração que a ressocialização tem contribuído para torná-los não só pessoas independentes, mas afetuosas e tranquilas.

Feliz por poder usar as suas próprias roupas e simples produtos da higiene pessoal, como sabonetes e o perfume preferido, Maria Damasceno abraça e se deixa abraçar pelos amigos. Com um sorriso simpático, ela é a prova inconteste de que a ressocialização é possível e contribui para tornar estas pessoas mais independentes, afetuosas e mais integradas ao convívio social.

Se sentar à mesa e fazer uso dos talheres era uma tarefa aparentemente impossível para Terezinha Bispo de Sena. Ela veio da cidade de Coração de Maria especialmente para confraternizar com "os velhos amigos", disse, emocionada.

A enfermeira do Centro de Assistência Psicossocial Dr. João Carlos Lopes Cavalcanti – Caps III, Dailey Carvalho, responsável por três residências terapêuticas implantadas no município, afirma que “o trabalho de ressocialização devolve a dignidade e a autonomia a quem sofre de transtornos mentais”.

“Há histórico de pacientes que não se alimentavam, não usavam roupas e andavam descalços, mas já adquiriram autonomia para sair, já aprenderam a sentar-se à mesa e o que querem”, afirmou a psicóloga Margarete Carneiro ponderando que “são situações da vida diária que eles foram privados em realizar por muitos anos”.

Residências estão vinculadas ao Caps

Nas residências terapêuticas convivem cerca de 45 pessoas, mas já chegou a contar com 80 residentes. A redução da demanda, se deve ao falecimento de alguns indivíduos ou o retorno de outros ao convívio, pondera Robervânia Cunha, coordenadora de Saúde Mental.
Estas casas, diz ela, estão concentradas nos bairros Capuchinhos e Santa Mônica. Há também na Brasília e Jomafa. As residências estão vinculadas ao Caps.

“As residências terapêuticas que a Prefeitura mantém é classificada como do tipo I. São destinadas para egressos do Hospital Especializado Lopes Rodrigues e para pacientes que tiveram longo período de internação e apresentam condições de serem reinseridos na sociedade”, afirma Robervânia.
Esses moradores têm autonomia para fazer sua higiene pessoal, cuidam do lar e até podem sair. A assistência a eles é prestada por uma equipe multiprofissional da Secretaria Municipal de Saúde, composta por enfermeiro, assistente social, psicólogo, clínico, pedagogo, técnico de enfermagem, além de cuidadores.

Texto: Renata Leite
Fotos: Jorge Magalhães
(Publicado originalmente no site oficial da Prefeitura Municipal de Feira de Santana)

terça-feira, 25 de julho de 2017

LUCAS E EU: AMOR QUE NÃO SE MEDE




Do alto (?) de seus quatro anos bem vividos, ele diz que já é adulto, na tentativa de me convencer a atender o seu pedido. O poder de convencimento se desvanece nas minhas gargalhadas e ele, compenetrado, parte para outra, imediatamente: Sabia que já vou fazer cinco anos? Como se esse argumento valesse mais que o primeiro.

E assim começa – e às vezes termina – o diálogo com Lucas, meu neto, um presente que eu ganhei sem merecer, como diz a escritora Raquel de Queiroz em seu texto sobre a avó. Tudo que vem dele é grandioso. Um beijo na hora que acorda, um abraço para retardar a minha saída para o trabalho, as brincadeiras na hora do banho, o elogio espontâneo – Vovó, você é tão linda!

Ele é tão especial que já sabe, ainda tão pequenininho, valorizar duas coisas essenciais em nossa vida, família e amigos. Tanto que não permitiu que ninguém interferisse na lista de convidados para seu aniversário. Bárbara, preocupada em cumprir as regras sociais, bem que sinalizou, uma vez ou outra, com algum nome, mas ele se manteve irredutível: Esse não, viu mãe?

A conta é mais ou menos assim, Lucas tem quatro anos de vida e eu ganhei esse mesmo período de vitalidade e capacidade de superação. O seu amor me alimenta de tal forma que no final de semana, quando eu penso que vou descansar da labuta diária, troco qualquer compromisso (até um show de Zé Ramalho, acreditem!) para levá-lo a uma festinha.

Eu não sigo nenhum manual para desempenhar meu papel de avó. Meu leme é o coração e é por meio desse órgão que nos relacionamos. Se às vezes perco a paciência? Claro que sim. Mas nada que um afago, de ambas as partes, não contorne. O nosso amor é incondicional e imensurável e agradeço a Deus todos os dias por me permitir essa bênção que é tê-lo em minha vida.

Madalena de Jesus

domingo, 16 de julho de 2017

EXPOSIÇÃO IMAGEM DE MODA: VITRINA E COTIDIANO NA EBAM


A exposição Imagem de Moda: Vitrina e Cotidiano, da professora e jornalista Renata Pitombo Cidreira, é um dos destaques da programação de aniversário da Escola Baiana de Arte e Moda (EBAM), que acontece entre 17 de julho e 17 de agosto. A abertura da mostra acontecerá nesta terça-feira (18), a partir das 19h30, com recital de música, além de autógrafos nos livros publicados pela autora.

As imagens estarão disponíveis para visitação no período de comemorações do aniversário de um ano da EBAM. A jornalista apresenta vitrines de grandes marcas de moda produzidas em Paris, Milão, Madrid e São Paulo, nos anos de 2010, 2014, 2016 e 2017. Os registros de maisons como Chanel, Dior, Prada, Armani e Lanvin buscam evidenciar a força das composições visuais, através das cores, texturas e volumetrias. A mostra já foi montada nas cidades de Cachoeira, Feira de Santana e Salvador.

Sobre a autora

Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, onde também fez Mestrado e formou-se em Jornalismo. Em 2011, fez pós-doutorado em Sociologia no Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, da Université René Descartes (Paris V – Sorbonne). Entre 2003 e 2006, coordenou o curso de graduação em Comunicação e Produção em Moda da FTC Salvador, onde liderou o grupo de pesquisa Moda Mídia.

Atualmente, é professora associada da UFRB e líder do grupo de pesquisa Corpo e Cultura (UFRB/UFBA). Também atua na pós-graduação em Moda, Artes e Contemporaneidade da UNIFACS e no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA, além de participar do grupo Estética e existência da UFBA.

domingo, 9 de julho de 2017

HEROIS ANÔNIMOS, AMOR E CHUVA




Eu não sei o nome deles. Mas nem é preciso. A cena que presenciei no início da noite de uma sexta-feira vale mais do que um documento de identidade. Foi tudo muito rápido e as pessoas que passavam pelo local ou estavam dentro da loja certamente não entenderam o que estava acontecendo. Já estava bem escuro.

Chovia, aquela chuva fina e fria dos últimos dias. Primeiro parei o carro ocupando duas vagas, na pressa para pedir uma informação a uma das moças que trabalham nos caixas em um estabelecimento comercial, na avenida Getúlio Vargas. O segurança, devidamente fardado, me abordou e, gentilmente, me ajudou a estacionar corretamente.

Também fui gentil e agradeci, mas acho que ele nem ouviu, porque exatamente nesse momento um motociclista atropelou um ciclista, cujo corpo ficou estendido no chão. O segurança (aquele gentil, que me ajudou a estacionar o carro) correu para o meio da avenida e evitou uma tragédia maior, gesticulando para que os carros passassem pelo outro lado.

Ao mesmo tempo, um colega dele ajudava o motociclista, que também caiu com o tombo, a recolher seus pertences e retirar a moto do local. Tudo em questão de segundos. Ninguém pediu ajuda e muito menos mandou que eles fizessem isso. Um gesto que me fez acreditar que ainda é possível esperar algo de bom das pessoas.

De lá, depois de trocar umas moedas e fazer uma compra de R$ 1,87 (rsrsrs), fui visitar a princesa Alice, uma menina de 7 anos que está dando lições em muita gente grande nesses dias em que está em observação médica no hospital, sob os olhos vigilantes da mãe Kenna, familiares, amigos, tios – de verdade e de empréstimo, como eu – e das bonecas Barbie com quem divide a cama hospitalar.

E foi de Alice que eu ouvi a resposta para uma tia – igualmente emprestada – que queria saber o que ela gostaria de receber de presente: “Amor, o resto eu tenho”. Foi o que faltava para fechar a noite com chave de ouro e bem mais tarde, já em casa, driblar o frio duplamente enroscada: no cobertor quente e no corpinho acolhedor de meu neto Lucas.

Madalena de Jesus

quinta-feira, 22 de junho de 2017

MODA E TRADIÇÃO: A ARTE SECULAR DO BASHOFU


Quimono produzido com tecido bashofu (Foto: Reprodução)


Fibra de bananeira usada na produção do bashofu (Foto: Reprodução)


Tecido do tipo bashofu ganha espaço na moda  (Foto: Reprodução)

Num momento em que estamos prestes a celebrar uma grande tradição, sobretudo, no nordeste brasileiro, o nosso tão festejado São João, talvez seja interessante nos debruçarmos sobre outras formas de tradição para tomar distância e compreender melhor a dinâmica da tradição enquanto tal. Contrariando a ideia de que a moda segue apenas o fluxo que vai do presente para o futuro, reificando valores como a instantaneidade, a efemeridade e a novidade incessante, arriscamos dizer que algumas iniciativas artesanais reforçam o diálogo da moda também com a tradição. Reconhecemos que numa análise mais detalhada seja necessário considerar a distinção entre a roupa e a moda. Ainda assim, acreditamos que mesmo as vestes e as matérias-primas de que são feitas, que não se encontram, necessariamente, no registro cíclico da indústria da moda, e dos ditames das tendências, também podem ser inseridas, de certa forma, no mercado e no circuito da moda. Um desses exemplos é o tecido produzido no Japão, o bashofu, do qual originam-se belíssimos quimonos.

Em recente exposição na Japan House, intitulada Bambu: histórias de um Japão, sob a curadoria de Marcello Dantas, tivemos a oportunidade de contemplar variados objetos produzidos a partir do bambu, esse ingrediente recorrente, que se manifesta de diferentes formas no tecido cultural do país. Curiosamente, também na mesma exposição, uma outra planta nos chamou atenção: assistimos a um vídeo sobre o processo artesanal de produção do bashofu, tecido da fibra da árvore de basho, que é uma bananeira.

Existem registros deste tecido desde o século XIII, e o mesmo era utilizado não apenas por pessoas comuns como uma peça de vestuário de verão, mas pela família real e membros da família da casta samurai. Pelo que pudemos constatar pelo vídeo, o processo de tecelagem representa apenas 1% do processo inteiro, que começa com a plantação e crescimento do basho por vários anos. Depois vem os cortes das folhas, a colheita dos caules da bananeira, a fervura e a divisão das fibras. Na sequência, temos o trabalho de tingimento, tecelagem e acabamento, ressaltando que cada um desses procedimentos é feito à mão e a confecção pode durar até seis meses. Atualmente, o bashofu só é encontrado na região norte da ilha de Okinawa, na vila de Kijoka.

A mestra e artesã Toshiko Taira, reconhecida como Tesouro Nacional Vivo no Japão, é a responsável pela sobrevivência da técnica de produção do bashofu, preservando essa riqueza nacional. O tecido tem como especificidade o frescor, a resistência e o fato de não absorver muitas impurezas como gordura, por exemplo, em sua trama. Os produtores só podem fazer cerca de 250 rolos de bashofu por ano, devido ao tempo necessário para a confecção do mesmo. Um rolo de pano de quimono tem cerca de 12 metros do tecido e, consequentemente, o valor de um quimono tecido de bashofu está aumentando ano a ano, pela raridade e prestígio do feito à mão.

No mundo da moda, estamos assistindo nos últimos anos, como bem observa Ana Mery Sehbe De Carli, dois movimentos antagônicos: o fast fashion, que propõe acelerar o ciclo de vida do produto, injetando novidades no mercado a cada 20, 30 dias; e o slow fashion, um claro movimento de desaceleração, propondo valores mais atemporais para a moda, tais como: marca, tradição, qualidade, laço emocional que envolve afetivamente o consumidor e o bem adquirido.

No slow fashion, efetivamente, vemos a valorização da tradição e, consequentemente, dos processos artesanais. A tradição, comumente concebida como uma prática perpetuada de século para século, mantém relação com os elementos culturais presentes nos costumes, nas artes, nos fazeres, que são legados do passado, e continuam a ser aceitos e atuantes no presente. E esse é bem o caso do tecido bashofu: um saber artesanal que vem sendo perpetuado pelas mãos firmes e delicadas de Toshiko Taira e suas aprendizes. Na dinâmica do slow fashion, há uma valorização do artesão e os produtos têm seu ciclo de vida prolongado, associado ao apreço pelas prendas feitas à mão.

Quando a intenção é reforçar a dimensão da memória e da tradição presentes em alguns tecidos e vestes, como no caso específico do bashofu e dos quimonos produzidos com ele, não há como associá-los, à princípio, ao consumo incessante promovido pela lógica da novidade e da mudança; mas começamos a presenciar um movimento em direção a um consumo mais consciente e afetivo. Nesse sentido, podemos sustentar a ideia de que moda e tradição apenas aparecem como polos opostos quando pensamos o tempo numa curta duração, mas, de fato, elas parecem se encontrar numa longa duração. Assim, existe uma tradição na moda, na medida em que a multiplicação das mudanças solicitará, muito provavelmente, o retorno a certos padrões; bem como há uma moda na tradição, uma vez que esta necessita de formas para se materializar. Esta dinâmica também pode ser atestada na festa junina que, a cada ano, se renova, mas preserva sua ligação com a cultura da vida e dos costumes rurais. Tal perspectiva, talvez, ateste de forma mais evidente a potência dos tecidos, da roupa e da moda para expressar plasticamente certas maneiras de ser, modos de viver e formas de nos relacionarmos com o mundo.

Renata Pitombo Cidreira 
Professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CACULÉ: O VENDEDOR DE UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS QUE SABE TUDO SOBRE FEIRA DE SANTANA




Com certeza quem anda por Feira de Santana, especialmente pelas ruas do centro comercial, alguma vez já viu ou foi parado por “Caculé”. O paraibano José Pergentino da Silva, de 66 anos, morador do bairro Queimadinha e vendedor de utensílios domésticos.

A conversa de Caculé é tanta, que por algum momento chega até a ser incompreensível. E em alguns minutos de bate-papo ele dispara informações sobre todos os assuntos. Caculé sabe sobre história, cultura e todo o noticiário de jornal. Mas, o que ele mais gosta mesmo é de falar sobre política, Feira de Santana e fazer suas adivinhações.

“Eu cheguei em Feira com dez anos. Eu gosto muito desse lugar. É uma cidade muito boa, mas a maioria do povo não vale nada. Só se preocupa em roubar e fazer mal ao próximo”, alerta Caculé.

Com tanto assunto, ele até esquece de vender os seus produtos, que leva amarrados e pendurados no próprio corpo. O carrego é pesado. Tem bacia, vasilhas plásticas de todos os tamanhos, peneiras de todas as cores, além de colher de pau. Sobre os preços, ele conta que é tudo baratinho e o valor é único. “Custa cinco conto cada uma”, completa.

Apesar de conhecer muita gente, Caculé diz que vender fiado é mais difícil. Tudo depende de quem é o cliente.

Adivinhações e o “pó de tabaco”

Entre tantas histórias, Caculé tira da capanga de couro um vasinho pequeno com um pó preto e começa a cheirar e a espirrar. Eu pergunto: O que é isto Caculé? Ele logo responde: “É ‘tabaco’, vou mandar um desse pra Dilton Coutinho”, diz.

Para quem não conhece, o ‘tabaco’ ou rapé é um produto medicinal muito utilizado pelas pessoas mais antigas que acreditam que ele é bom pra doenças das vias respiratórias. É feito de tabaco e uma mistura de outras plantas, ervas e ingredientes medicinais.

Médium de nascença

Sobre as adivinhações que faz sobre a vida das pessoas, Caculé explica que são orientações dos espíritos e que ele é médium de nascença. Há quem diga que ele diz sempre a mesma coisa de todo mundo, principalmente que a sua bisavó era índia e que você é uma pessoa muito desconfiada.

No entanto, no meu caso, foi um pouco diferente: “Sua bisavó era índia e o primeiro homem que sua mãe namorou e casou foi seu pai. Você não tem maldade em nada, mas seu mal é confiar nas amigas. Na sua casa a pessoa mais inteligente é você”, e ele emenda e me pergunta:” Você acredita?”. Eu repondo:” Sim, acredito Caculé”. Então assim é dado por encerrado o assunto adivinhação e vamos para o próximo tópico da nossa entrevista.

Política

Falamos então sobre política, o assunto preferido de Caculé, e ele novamente dispara de informações sobre corrupção, operações da Polícia Federal e as eleições 2018.

Sobre o cenário político municipal, Caculé avalia a gestão do prefeito José Ronaldo. Para ele, o prefeito tem feito uma boa gestão. No entanto, ele não acredita que José Ronaldo irá para o senado e aposta em Colbert Martins para ser o próximo prefeito de Feira.

“A política, Zé Ronaldo quer sair pro Senado, mas eu não sei se ele vai não. Porque eu acho que aqui ele não tem voto para Senado não. Agora pra deputado ele ganha. “Colbertzinho”, futuramente, vai ser o prefeito da Feira, agora ele não é como o pai”, opina.

Ainda sobre política, Caculé também aposta em Lula para presidente em 2018. Na opinião dele, Lula fez muita coisa para o povo. “Eu voto nele e talvez ele vá ganhar de novo. O povo quer ele de volta”, afirma.

Patrimônio de Feira

Nos últimos tempos, o visual de Caculé também está um pouco diferente. Debaixo do seu tradicional chapéu de couro estão os cabelos grisalhos bem maiores do que o habitual. Eu procuro logo saber: “Tá criando cabelo é Caculé?” E ele responde sem cerimônia: “ Estou, vou deixar crescer para vender”, salienta.

Entre tantas curiosidades e relatos engraçados, a simplicidade de Caculé e suas marcas da idade e da vida deixam transparecer a sua identidade de trabalhador, de gente que acorda cedo todos os dias e que caminha pela cidade, levando Feira de Santana no coração, bons sentimentos e muito bom humor.

Caculé é gente que escolheu Feira de Santana para viver, trabalhar e é também parte do nosso patrimônio histórico e cultural.

O texto e a foto são  de Rachel Pinto
Publicação original no Acorda Cidade

quarta-feira, 14 de junho de 2017

AS VOLTAS DO MUNDO






Foi em uma noite de terça-feira, dia de poucos compromissos para a maioria das pessoas. Não para nós, jornalistas e mortais que somos, sempre com uma agenda maior do que a nossa capacidade de cumpri-la. No belíssimo cenário do Casarão Fróes da Motta, o lançamento do livro “As voltas do Mundo”, do jornalista e ex-secretário de Cultura, Esporte e Lazer de Feira de Santana Jailton Batista, foi uma grande festa.

O convite era para as 19h, mas às 18h31 já havia uma mensagem inquieta do autor: “Cadê você?” Eu ainda estava no trabalho, igualmente ansiosa. Só consegui chegar por volta de 20h30, depois de cobrir parte de uma sessão solene na Câmara de Vereadores. Mas encontrei o melhor da festa. Gente bonita, começando pelas herdeiras dele, Tina e Jana, que eu vi tão pequenas e hoje são belíssimas mulheres!

Profissionais de comunicação, produtores culturais, autoridades e, principalmente, amigos do autor estavam lá, dividindo com ele a alegria do momento e muitas histórias. Porque Jailton é um contador de histórias – e estórias também. E faz isso com um talento raro. Foi assim com a primeira obra (Duas mulheres, quatro amores e uma guerra civil), resultado de suas andanças pela África. E não é diferente agora.

Jailton consegue reunir em torno de si pessoas dos mais variados perfis e dá conta de todas. A conversa com os mais sérios intelectuais, a troca de informações sobre empreendedorismo com grandes empresários, o bate papo informal com os colegas de comunicação, o riso solto com os amigos de infância, os casos de viagem que viram piada fácil, fácil. Tudo isso em um só lugar e quase ao mesmo tempo.

Bom, e na noite do lançamento o clima foi de descontração. Jailton se dividiu entre autógrafos, entrevistas e voltas pelos salões do casarão, já anunciando uma terceira publicação no gênero romance. Nascido em Andaraí e formado cidadão em terras feirenses, ele vive atualmente em Goiânia (GO), mas volta e meia circula por Feira de Santana, onde deixou marcas indeléveis como jornalista, escritor e gestor da Secretaria de Cultura. Quem vai esquecer projetos como Natal Encantado, Música na Escola e Samba de Roda, Samba de Todos?

Madalena de Jesus

domingo, 28 de maio de 2017

FTC APOSTA NA DIVERSIDADE CIENTÍFICO-CULTURAL













Diversidade e criatividade são as duas palavras que melhor definem a 2ª Mostra Científico-Cultural, que movimentou o campus da FTC Feira de Santana nesta quinta-feira (25). Práticas de metodologias ativas, shows musicais, apresentação de dança, lançamento de livro e bate-papo com autores, além de quadrilha temática da área de saúde. Tudo isso em um só lugar e com a participação de alunos e professores de todos os cursos.

O resultado das metodologias ativas aplicadas em sala de aula foi exposto em mais de 30 estandes instalados na área de convivência da Faculdade, desde projetos de engenharia e receitas de alimentação saudável a atividade prática de conscientização sobre a importância de combater o mosquito da dengue e iniciativas empreendedoras. Característica comum a todos os trabalhos: o desempenho dos estudantes.

Se os alunos se comprometeram em fazer o melhor, os professores também se empenharam ao máximo, em todas as áreas. Na saúde o destaque ficou por conta da Quadrilha Celular, apresentada por mais de 300 alunos, sob a marcação do professor Alano Calheira Durães, que literalmente suou a camisa para dar conta do projeto. “A sensação é de dever cumprido”, disse, no final, ao agradecer aos alunos participantes.

Na avaliação do estudante Henrique Arruda, que cursa o 1º semestre de Direito, iniciativas como a Mostra Científico-Cultural é uma oportunidade muito boa, pois “motiva o aluno a ter uma visão de mundo bem maior, diferente, além de estimular a integração; melhor do que as metodologias antigas”. Vinícius Reis, do curso de Biomedicina, também gostou de participar do evento, mostrando resultados. “É estimulante”, resumiu.

O adolescente Gilson Victor, que se encontrava na FTC como visitante, disse que não poderia ter momento mais propício para conhecer a Instiquição. “Eu quero fazer Psicologia”, anunciou entusiasmado, depois de ganhar um livro sorteado durante o bate-papo com os autores Carlos Magno, Alfredo Morais, Madalena de Jesus, mais a estudante de Odontologia Fernanda Mastrolorenzo. Chênya Pereira Coelho, que já é aluna do curso, também foi contemplada com um exemplar do livro Tabuleiro da Maria.

O sucesso da mostra contagiou até os pais de alunos. Sérgio Vianey e Lígia Borges assistiram a participação da filha Mariana, 1º semestre de Odontologia, na Quadrilha Celular. Ele filmou e fotografou tudo, emocionado ao ver o trabalho do professor ligando o conhecimento em sala de aula à atividade. Josi Barbosa, mãe de Carla Larhara, 1º semestre de Fisioterapia, confessou que não esperava o que viu. Se surpreendeu e aprovou: “Quadrilha criativa, linda e animada, sem sair do conteúdo da disciplina”.

O resultado mereceu aplausos da professora Marcly Amorim Pizzani, diretora adjunta da unidade. Ela lembrou que o evento foi uma iniciativa do Colegiado de Enfermagem, mas que cresceu e hoje envolve todos os cursos, é institucional. Marcly destacou o desempenho dos estudantes, ressaltando que “o profissional não é feito apenas em sala de aula”, para explicar a opção da FTC pelas metodologias ativas e o currículo por competências.

Quem esteve na Faculdade, durante o dia ou à noite, ainda ouviu muito forró e MPB, com a apresentação dos alunos da casa Samir, o Raimundinho (Psicologia), Adriele Fiúza (Odontologia) e Isabela Assunção (Educação Física), mais a dançarina e contorcionista Jéssica Rodrigues também estudante da FTC (Educação Física). Este ano estiveram à frente da organização da mostra os professores Carlos Magno, Hayana Leal Barbosa, Alano Calheira e Guísala Mamona.

Madalena de Jesus

quarta-feira, 17 de maio de 2017

MÚSICA NA ESCOLA, NA CÂMARA E NA VIDA









Lembro com detalhes o dia em que o então secretário de Cultura, Esporte e Lazer Jailton Batista, com brilho nos olhos e muito entusiasmo, falou sobre o projeto de criar uma orquestra infantil com estudantes da rede municipal de ensino. O mesmo brilho que a secretária de Educação Jayana Ribeiro trazia no olhar na noite de terça-feira (16), na Câmara Municipal de Feira de Santana, diante da impecável apresentação da Orquestra Sinfônica Princesa do Sertão.

Foram apenas duas músicas, mas o suficiente para emocionar o grande público que lotou o plenário e a galeria, durante a sessão solene comemorativa do Dia das Mães. Sob a regência do maestro Jailton Alves – estou substituindo Rosa Eugênia, ele fez questão de lembrar – os acordes de Fico assim sem você (Adriana Calcanhoto) e de Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos) ecoaram pelos quatro cantos da Casa da Cidadania e chegaram ao coração de todos. Vinte integrantes da orquestra participaram da apresentação.

“Que coisa linda!”. Foi o que Jailton conseguiu dizer, diante das fotos dos pequenos músicos, compenetrados na tarefa sublime de encantar por meio da música, juntamente com um áudio de apenas um minuto que eu lhe enviei ainda no plenário da Câmara. Uma pequena amostra do que é possível fazer quando se tem projeto, empenho e vontade. Os aplausos lá foram para a Orquestra Sinfônica Princesa do Sertão, que faz parte do Programa Música na Escola. Aqui são para a professora Jayana.

Madalena de Jesus

quarta-feira, 3 de maio de 2017

REMINISCÊNCIAS: E A TERÇA-FEIRA ERA ASSIM



Eu não sei a razão, mas a verdade é que em dias de chuva não é apenas o aconchego de uma cama quentinha que povoa os meus pensamentos. O tempo frio parece destravar um arquivo de lembranças que os afazeres da labuta diária se encarregam de deixar bem escondidas. E esse processo acelera ainda mais se o lugar for propício aos devaneios e o tempo não for demarcado pelo ponteiro do relógio.

Um feriadão daqueles que começa na sexta e vai até o domingo, família reunida na cidade natal, comida saborosa, um filme antigo visto com um novo olhar, conversa animada na copa e a chuva fina que cai sem parar. O cenário da Casa Amarela – aí a saudade aperta – é perfeito para um encontro com a minha memória, onde situações distantes parecem tão reais quanto o momento atual.

As cenas vão passando em ritmo acelerado, mas de vez em quando eu me detenho em algumas delas. Terça-feira, final da tarde, todos ansiosos pelo momento mais esperado do dia – ou melhor, da noite. Mas o tempo passava bem devagar, a noite se instalava trazendo todos os medos possíveis dentro de uma escuridão imensa. E nada. Somos nove ao todo, eu e meus irmãos, e dá muito trabalho nos convencer a ir para a cama.

Já noite alta, meu pai chegava, cansado de um dia que começara ainda na madrugada, quando arrumou as bananas que levaria para a feira de Santa Bárbara. As muletas, companheiras de toda a vida, pesavam ainda mais embaixo dos braços fortes tomados pela fadiga. A comida já na mesa, a bacia com água para lavar as mãos também. E enquanto ele comia o jantar saboroso, mesmo com o mínimo de condimento que restara da semana anterior, minha mãe tentava nos manter no quarto, para não incomodá-lo.

Em uma das saídas dela do quarto, onde eu me aconchegava na quentura do corpo de Dai, eu levantei de um salto e foi impossível me conter. Eu corri para a mesa e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, eu já estava sobre as pernas sem movimento, saboreando os pedaços de carne de panela que ele sempre deixava para mim, com punhados de farinha que trouxera. E então, a parte mais importante da noite: sentávamos lado a lado para contar a féria do dia.

- Figura com figura, os números do mesmo lado, as notas iguais juntas e sempre o valor do maior para o menor.

Enquanto ele ensinava como arrumar as cédulas retiradas do bolso da camisa suada e igualmente amassada, eu alisava uma por uma, para retirar as marcas do manuseio apressado e sem cuidado algum durante a feira. A essa altura, minha mãe fazia de conta que não estava nos vendo e só retornava da cozinha para trazer água limpa, na mesma bacia, para lavar quatro mãos e não duas como antes, até que a água do banho chegava à temperatura ideal para que ele se lavasse antes de dormir.

Com a inocência natural dos sete anos de idade, eu não entendia direito porque o banho era em uma bacia – não a de lavar as mãos, uma bem maior – e não de pé como nós tomávamos. Mas isso era apenas um detalhe que logo saía do meu pensamento, porque já havia terminado a tarefa e guardado o dinheiro, no mesmo bolso sujo vindo da feira livre. Além disso, o sono já chegara fazia tempo e eu só voltaria a viver tudo isso na semana seguinte. E na outra. E na outra. E na outra...

Madalena de Jesus

terça-feira, 2 de maio de 2017

ENQUANTO HOUVER ALGUM MODO DE DIZER NÃO EU CANTO








Conhecedor da minha admiração pelo cantor Belchior desde a juventude, um sobrinho querido me consolou, neste domingo pós-morte em que a sua imagem parecia ocupar todos os aparelhos de tv por onde eu passava. Merecidas homenagens. Do Brasil, do Ceará, de Sobral. Uma saudade enorme tomou conta de mim, já à noite, ouvindo as belas canções que o tornarão imortal.

Osvaldo Montenegro chorou em rede nacional. Eu também chorei, quietinha em meu canto, lágrimas de uma fã que viveu aventuras incontáveis para assistir um show. “Eu quero morar no teu céu, pode ser no teu inferno...” E as palavras saltavam do ouvido para o coração de uma menina apaixonada, por ele e pelo namoradinho com quem compartilhava momentos de ternura nos bancos da escola.

Em meio a essas lembranças e o noticiário, eu descobri que Belchior não era o seu nome, mas apenas um dos muitos sobrenomes que carregava. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, um poeta cearense que fez dos versos uma ferramenta de luta contra o que não concordava. “Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não eu canto”, dizia, em sua eterna Divina Comédia Humana.

Nem mesmo o tempo que viveu recluso o levou ao esquecimento. Suas canções continuaram ecoando, seja em sua voz ou em tantas outras vozes – e aqui abro um parêntesis para citar Vanusa, Elis Regina e Osvaldo Montenegro. Foram 10 anos sem shows ou sequer aparições em público. O filósofo que virou cantor se isolou na própria timidez saiu de cena em casa, deitado no sofá, ouvindo música. Sem alarde.

Madalena de Jesus

sexta-feira, 24 de março de 2017

TABULEIRO DA MARIA: UM LIVRO SOBRE A ALMA HUMANA



“Crônicas são sobre fatos do cotidiano, mas estas falam sobre a alma humana”. Esta é a definição do livro Tabuleiro da Maria, para o jornalista e escritor Marcondes Araújo que aceitou a irrecusável tarefa de selecionar 50 textos tecidos com o talento de quem possui histórias no olhar. O título reúne narrativas sobre pessoas e situações que integram o cotidiano de Feira de Santana e da própria vida da autora, a jornalista Madalena de Jesus. A diversidade de temas é o ponto alto da publicação, que prende a atenção pela escrita fácil e precisa. O lançamento acontece no dia 30 de março, a partir das 18h30, no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA).

O Tabuleiro da Maria traz histórias publicadas entre 2010 e 2017 no blog do mesmo nome, também assinado pela jornalista, professora graduada em Letras com Francês pela Universidade Estadual de Feira de Santana e pós-graduada em Docência em Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), instituição onde também atua como assessora de comunicação.

Para a também jornalista Socorro Pitombo, a coletânea é trama de ternura, afeto e entusiasmo. “Ao se debruçar sobre essas páginas, os leitores poderão constatar que Tabuleiro da Maria tem muitos encantos, a começar pela narrativa leve e comunicativa da autora que, a partir de agora, passa a integrar o seleto grupo dos escritores”, registra a amiga de vida escolhida pela autora para assinar o prefácio do título.

Sobre a autora

Madalena de Jesus atua no jornalismo há quase quatro décadas. Ao longo da trajetória se tornou uma referência; são muitos prêmios (Troféu Imprensa de Feira de Santana, Troféu Jornalista Arnold Silva por quatro anos consecutivos e o Prêmio Juarez Bahia de Imprensa por duas vezes, dentre outros) e experiência em vários órgãos de imprensa em Feira de Santana e outras cidades da Bahia. Destaque para o Jornal Folha do Estado, como editora de política, Revista Panorama e Jornais Folha do Norte e Feira Hoje, este já extinto há alguns anos. É, também assessora de Comunicação da Câmara Municipal de Feira de Santana.

Beatriz Ferreira
Notre Comunicação

quinta-feira, 2 de março de 2017

A MAGIA DO TRAJE: A APARÊNCIA NO CARNAVAL


Por Renata Pitombo Cidreira


Reprodução | Prefeitura de Veneza

Já é Carnaval! Momento em que as manifestações explícitas de alegria tendem a expressar, através de uma ideia quimérica de liberdade, as tensões constitutivas de nossa identidade. Mas será mesmo que o espírito da verdadeira fantasia e do jogo da imaginação ainda permanece como o alicerce dessa que é considerada a maior festa popular do mundo? Quando viajamos no tempo e nos reportamos a um dos mais antigos carnavais, o de Veneza, que data do século XII ou XIII, nos indagamos se o espírito que mobilizou essa festa ainda se faz presente nas manifestações contemporâneas?

O Carnaval de Veneza se caracteriza pelo uso intenso de máscaras e figurinos que tentam reproduzir o estilo dos nobres que viveram nos séculos XVII e XVIII, ou os modelos apresentados pelos personagens da Commedia Dell’Arte – representações teatrais muito comuns na Itália e por toda a Europa do século XVI até a metade do século XVIII, as quais celebrizaram personagens até hoje cultuados como o pierrô, a colombina e o arlequim.

O fato é que de lá pra cá muita coisa mudou. Alguns pesquisadores afirmam que, inicialmente, o carnaval de Veneza teria surgido em comemoração a uma vitória militar, outros, por sua vez, defendem que 1296, o Senado veneziano formalizou o carnaval, ao declarar que o último dia antes da quaresma fosse um período de jogos, brincadeiras e diversão pública. No século XIX, quase foi eliminado do cenário europeu e ao longo dos anos foi ganhando novos contornos, é verdade. A partir da década de 1980 a festa tem sido resgatada com maior vigor e passou a ser fruto do empreendimento pessoal de foliões e, certamente, um elemento parece ter permanecido: o apreço pela fantasia, ou seja, a prática de nos travestirmos através do uso de roupas e adereços que nos remetem a outros personagens.

Famoso pelas tradicionais máscaras, o Carnaval de Veneza conserva até hoje essa capacidade de nos imaginarmos outros, de incarnarmos e representarmos novos papéis nessa grande cena que o Teatro do Carnaval nos permite protagonizar, tendo como inspiração o Teatro propriamente dito que desenvolve uma trama, num placo, dirigido a uma plateia. E talvez o mais interessante é que podemos ser vários, adotando novos e outros personagens a cada troca de roupa, nos vários dias de festa, retomando a etimologia da palavra persona, que remetia exatamente à máscara de cada personagem.

Embora já com algumas manifestações desde o século XVII, influenciado pelo entrudo português, em terras soteropolitanas, o Carnaval como conhecemos hoje tem início na década de 1950, com foliões dançando atrás de carros de som, as velhas fobicas, posteriormente conhecidos como trios elétricos. Em 2005, o evento foi eleito pelo Guinness Book o maior carnaval de rua do mundo, com 2 milhões de foliões nas ruas que, pouco a pouco, foram se organizando em blocos, com suas camisetas de identificação (os abadás) e uma corda de proteção desse grupo dos demais foliões. Nesta grande festa, o destaque tem sido para os ritmos musicais e as danças e, durante algum tempo, observamos que as fantasias e as máscaras ficaram num segundo plano. Para além das mortalhas e dos abadás que passaram a fazer parte do Carnaval brasileiro, sobretudo, a partir da influência baiana, muitos de nós sentimos falta do uso de trajes mais imaginativos e fantasiosos que essa grande festa nos proporciona. Como ressalta Milton Moura, a indumentária é um elemento extremamente importante para a visibilização das referências de mundos fantásticos que constituem o Carnaval.

Se tentamos recuperar a etimologia da palavra Carnaval, encontraremos mais de uma vertente interpretativa. Ela se origina do latim carne vale, que significa adeus à carne, numa alusão aos dias em que se podia comer carne antes da quaresma; ou ainda, numa outra leitura, significaria despedida do próprio corpo como emblema da identidade, na medida em que nesse período as pessoas são estimuladas a se soltarem e expressarem seus sentimentos. E sabemos, sem dúvida, que assumir a pele do outro nos ajuda a fazer e a sentir algo que habitualmente não faríamos ou não sentiríamos. Como destaca Georg Simmel, o adorno e as roupas ampliam nosso eu, antecipando a disposição performativa do ser humano. Aqui identificamos o papel da roupa e dos acessórios, sobretudo da máscara e da fantasia, como elementos mediadores, dispositivos de passagem entre personagens possíveis.

A máscara e a fantasia, retomam o espírito do Carnaval em deixar correr livre os sentidos e experimentar novas situações. Assim, nos tornamos suscetíveis e receptivos à atuação de novos e outros personagens, na medida em que talvez precisemos buscar a nós mesmos em outros “seres” virtuais, latentes. É a verdadeira magia do outro, através do traje, que invade o Carnaval e a cada um de nós nessa festa!

Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

Texto publicado originalmente no Portal A Tarde, Coluna Pensando Moda.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

COMO OS GIRASSOIS DE VALDIRENE BORGES





É sempre assim... A suposta facilidade de escrever desaparece diante da mistura de sentimentos e pensamentos que a perda do convívio com alguém que amamos provoca. E aqui estou, tentando vencer essa dificuldade, desde a tarde de domingo (12), quando recebi um incontável número de mensagens com a mesma notícia: Adervan cumpriu a sua trajetória entre nós. Novamente o domingo perdeu a cor e a graça – foi assim com outros grandes amores, incluindo meu pai, Amílcar de Jesus, Egberto Costa, Elis Regina e Conceição Lôbo, só para citar alguns.

Mas deixando de lado a coincidência do dia. Será? Sou meio descrente disso. Mas vamos lá. Se final da tarde de domingo já é meio sombrio, pelo menos para mim, a noite não foi melhor em nada. Imagens iam e vinham o tempo inteiro. Lembrei de quando eu conheci Adervan, ainda meio desconfiada pelo seu jeito aparentemente (só aparentemente, descobri logo) sisudo. Foi pouco tempo depois que cheguei a Itabuna, no final de 1992, para integrar a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal.

Nos conhecemos, mas não nos aproximamos de pronto. Não sei exatamente porque. Acho que o senhor do tempo decidiu que quanto mais demorasse para nos tornarmos amigos, mais intensa seria a nossa relação. E foi isso que aconteceu. Nos meus últimos tempos nas terras grapiúnas e depois, quando retornei e fui trabalhar no Jornal Agora, aí sim, conheci a fundo o verdadeiro José Adervan de Oliveira, que aprendi a amar e admirar. Como pai, amigo, patrão. Uma pessoa que descobriu o melhor de mim e me deu o que tinha de melhor.

Me encantei, sobretudo, com o seu jeito de fazer jornal. Primeiro, por destinar um caderno inteiro, que tinha o sugestivo nome de Banda B, para notícias sobre cultura. Um espaço para os artistas de Itabuna e região, uma grande vitrine, sem dúvida. Segundo, pela postura cordial, mas firme com as fontes, especialmente políticos. Entrevista fora do jornal? Nem pensar. Podia ser prefeito, deputado, vereador, secretário... E por último, o tratamento dispensado à equipe. Não importava o que acontecesse na rua, o repórter ou fotógrafo tinha o seu apoio.

Do Agora eu carrego grandes amizades. Começando por Roberta (minha amiga mais que especial), Fernanda e Dona Ivone. Da redação vieram para a minha vida Verinha, Walmir, Waldir, Ulisses... Impossível relacionar todos. Por isso acho mais prudente me concentrar naquele que sempre foi e – quer saber?  - acho que continuará sendo, a grande razão de ser desse projeto grandioso, que ultrapassa a fronteira do jornalismo. Porque eu acredito que, onde quer que esteja, Adervan continuará brilhando, como os girassois do belíssimo quadro de Valdirene Borges, que ele me deu de presente há mais de 15 anos.

Madalena de Jesus, jornalista, radialista, professora e amiga de José Adervan de Oliveira , para sempre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O SEQUESTRO DE SÃO JOSÉ



Na infância, fé, esperança e fantasia são sentimentos que parecem brincar com a criança. Se aqueles dependem da crença, a fantasia é o que torna a vida mais bela de forma descomprometida. No sertão, fantasia seria viver num inverno constante. Assim aprende-se desde pequeno com os mais velhos.

Em algum canto dos Sertões do Tocós, há algumas décadas, todos sabiam que imagem encarnada ou até mesmo quadro de São José não costumavam habitar os nichos ou paredes de apenas um lar durante todo um ano. Elas eram comumente furtadas! Isso! Delito legítimo e chancelado pela fé de quem comete tal crime e de todos que acobertaram o “roubo” do santo em nome do bem comum. Em tempo de seca hostil, somente esse santo poderia acalmar os homens e seus bichos sedentos.

Olhar o oratório vazio ou a marca escura da tinta deixada pelo quadro levado deixava seu dono na falta do santo protetor, mas ele, esposa e seus filhos acolhiam aquela ausência como uma honra e proclamavam a todos o sequestro. Mais um motivo para ter-se fé! Santo “roubado” significava a esperança correndo na bica.

Até São João fica refém de São José. Se até o dia deste santo não chovesse, não haveria milho para festejar nas ladainhas do São João. O milho não cresceria a tempo! Então, as rezas se tornavam constantes e as promessas paralelas ao sequestro do São José. Todas as gerações curvadas suplicando clemência dos céus. E qualquer tom mais escuro no horizonte trazia todos à varanda da casa. Não seria daquela vez... Mas o santo saberia quando, dizia a matriarca. Não muito distante, todos veriam as rachaduras dos tanques cicatrizadas.

Enfim, a chuva cairia! Todos entenderiam que era importante acreditar. O andor finalmente começava a ser adornado pelos bambus que restaram no fundo da casa com as flores que resistiram à seca. Precisava avisar ao dono do santo! O sequestro fora pago pelo próprio sequestrado. Do lar de São José, via-se à noite o movimento harmonioso de tantas velas acesas. Toda ladainha cantada no rojão daqueles pés rachados como os tanques de ainda ontem.

São José voltara para sua casa e com ele, a esperança daquele lar. As crianças poderiam achar aquele ritual estranho, pois seus pais lhes ensinaram que “quem rouba não vai para o céu”, mas começavam a entender que a fé tem razões que a própria razão julgava desconhecer! Fantasia, esperança e fé, depois daquela noite, confundiam-se na cabeça das crianças que dormiam com o cheiro da parafina, do incenso, mas, sobretudo, da terra molhada.

(Jadione Almeida, esperando as trovoadas de 2017)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

SOBRE AMOR, EMOÇÃO E CASAMENTO






Era setembro de 2008, um mês cantado em verso e prosa pela beleza característica da estação das flores – então, é primavera! – quando cheguei à Assessoria de Comunicação da FTC Feira de Santana, pelas mãos da jornalista Socorro Pitombo. Logo conheci Maiany, uma menina linda, no esplendor dos 18 anos, se mais ou menos, muito pouco. Extremamente cuidadosa no trato com as pessoas. Cheia de si, mas sem pedantismo. Compenetrada na medida certa. 

Ela tinha a seu favor, além do frescor da juventude, a capacidade de sonhar, projetar. Queria estudar, ir além. Falava e eu gostava de ouvir, sempre que possível, já que nosso contato se dava durante a labuta diária. Com Daisy, formava uma dupla perfeita no setor de Pós-Graduação da faculdade. Nunca a encontrei de mau humor, mesmo nos momentos mais tensos, como a formação de novas turmas. Professor, aluno e colaborador tratados do mesmo jeito.

O tempo passou, me afastei da instituição por algum tempo, mas sempre tinha notícias de todos. De May, soube que cursava Psicologia. Isso mesmo! A menina que sonhava fez acontecer seu sonho maior. Também mudou de setor, não de emprego. Assumiu o Núcleo de Pessoas, substituindo a igualmente especial Guísala, que herdou da mãe, Terezinha Mamona, a garra e o carisma. E não demorou para chegar à sala de aula, agora como professora.

Eu não tenho certeza, datas não são o meu forte, mas creio que naquele ano de 2008 May já tinha um príncipe em sua vida. Quase um rei, para ser mais exata. Mas somente quando retornei, em setembro de 2015 – eu não disse que é um mês especial? – conheci Jean. Igualmente jovem, tímido, mas sempre com um sorriso sincero pronto para aflorar. Característica que certamente herdou do pai, que no dia do casamento cumprimentou os convidados, um a um, agradecendo a presença.

Sim, eles casaram. May e Jean compartilharam com a família e os amigos o momento mágico em que uniram suas vidas. As bênçãos vieram de um pastor inspirado, que usou uma das mais conhecidas figuras de linguagem da Língua Portuguesa, a metáfora, para instruir os jovens que a partir de então seguiriam o mesmo caminho. Citando a passagem bíblica da transformação da água em vinho, a talha seria o novo lar e o vinho, o amor. “Não deixem a sua talha secar”, disse, repetidas vezes.

Diante de cenas marcantes, a exemplo do choro inesperado do noivo – como assim, não é a noiva que chora? – ao falar de seu amor, os convidados se emocionaram e alguns choraram junto, inclusive eu, esquecendo até das mais de duas horas de atraso do início da cerimônia. Logo ela, sempre afobada para tudo... E depois, só alegria. Instrumentos de sopro, sertanejo romântico e, como diria Mário Neto, bagaceira music.

Teve até pedido de noivado de uma das madrinhas durante a festa. Quem? Daisy, que junto com uma bela declaração de amor do namorado Augusto ganhou o buquê lindíssimo da noiva-amiga. Ah, sim, ainda assistimos um clipe com o ensaio fotográfico de pré-casamento feito pelo competente Deudex, em Cachoeira, cenário que contribuiu muito para a beleza das fotos.

Valeu cada momento. E olha que eu quase desisti de ir, por causa de uma dorzinha no tornozelo que me impediu de usar salto alto... Um detalhe tão insignificante que ninguém percebeu.

Madalena de Jesus, jornalista, professora e amiga dos noivos, agora marido e mulher.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MODA VEGANA: O NOVO ESTILO FASHION



Por Renata Pitombo Cidreira

Estilo sempre foi uma palavra fundamental no mundo da moda. Tanto para o designer que busca um modo de formar personalíssimo e inconfundível, que faz com que seu traço seja reconhecido, como mais recentemente pelo consumidor que começa a assumir uma atitude mais autoral no seu modo de vestir e de compor sua aparência, através de intervenções nas peças ou mesmo a partir das combinatórias utilizadas. Desse modo, nada mais natural do que reconhecer que moda é estilo. Nesse sentido, é que nos questionamos: Qual o estilo da moda atual?

Muito já se falou da “proliferação de estilos” como o estilo, sobretudo a partir da década de 90, quando da apologia da democratização da moda e da liberdade de escolha do consumidor. Um autor como Ted Pollemus, por exemplo, vai nos falar da noção de supermercado de estilos, em que encontramos disponíveis nas prateleiras das lojas de departamento e mesmo nas vitrinas das marcas de prêt-à-porter, inúmeras possibilidades de produtos para consumo, fazendo um paralelo com as gôndolas dos mercados. Desde então, tem disso difícil eleger um estilo predominante na moda.

No entanto, já há algum tempo temos ouvido um discurso e mesmo algumas iniciativas em direção a uma atitude mais sustentável no universo fashion. Várias marcas tem se preocupado em produzir produtos que respeitem o meio ambiente, que provoquem um pouco menos de impacto ao nosso entorno. Dentre essas iniciativas, um estilo de vida tem se insinuado com mais vigor na execução e no consumo da moda vestimentar, incluindo os acessórios: é o estilo de vida e a moda veganos.

Como sabemos um estilo de vida tem relação com nossos valores, nossos costumes, nossas condutas. Dessa forma, o estilo de vida vegano preza uma ideologia em especial que é embasada no respeito aos animais, a partir da declaração dos Direitos dos Animais pela Unesco, de 27 de janeiro de 1978. Tal atitude tem gerado uma preocupação com a produção e posterior consumo de produtos que não sacrifique os animais. Além de excluírem a carne de seu cardápio, os veganos não consomem nada de origem animal. Não apenas na alimentação, mas também na moda, por exemplo.

Nesse segmento, a busca por matéria prima alternativa tem sido uma constante. Materiais sintéticos que imitam pele, como o poliéster e o acrílico; lã acrílica ou sintética, que é produzida a partir da derivação do petróleo; seda artificial, obtida em uma mistura entre poliéster, rayon e outros tipos de fibras sintéticas; camurça sintética, feita a partir de microfibras como o poliuretano e o polyester são alguns exemplos. Também são utilizados o algodão e o rayon, que não exploram animais para serem produzidos. Assim, materiais como couro, seda, camurça e lã passam a ser descartados na indústria vegana, bem como o uso de penas, plumas, pérolas e ossos na fabricação de acessórios.

Dentre as marcas brasileiras que se enquadram na produção da moda vegana, destacamos a Insecta Shoes e a King 55. A Insecta Shoes é uma marca de sapatos e acessórios, de Porto Alegre, e foi fundada em janeiro de 2014. Fabrica seus produtos a partir de roupas usadas e de garrafas de plástico recicladas, contabilizando cerca de 2100 peças de roupa reaproveitadas, 630 kgs de tecido e 1000 garrafas PET. O trabalho da empresa é orientado por valores como o veganismo, o consumo consciente, a redução de lixo, design e conforto. Além, é claro, de muita graça e beleza que estampam os pés que descortinam novas rotas. Já a King 55 é uma marca paulista criada em 2001, que conta com 3 lojas em São Paulo e 80 pontos de venda no Brasil. Suas criações apostam no estilo rocker, tendo, é claro, a música, a arte e a vida urbana das grandes cidades como referências. Produzem peças exclusivas, feitas manualmente e utilizam matérias primas sustentáveis, investindo também no uso de lavanderias que usam a água da chuva para lavar e tingir calças e t-shirts, e na utilização de produtos sem componentes químicos que possam ser nocivos à natureza. Assim, procuram alternativas que preservem a natureza e os animais. Com ousadia, propõem um consumo consciente e sustentável.

Ao adotarmos o estilo vegano na moda, no modo de compor nossa aparência, incorporamos valores como sustentabilidade, consumo consciente, preservação da vida animal, entre outros. Além disso, a própria ideia de estilo como um modo de formar singular e bem sucedido. Transparece, assim, nessas produções que destacamos e, em tantas outras, o espírito da moda em aliar usabilidade e beleza, combinados a uma produção sustentável. A moda vegana é politicamente correta e esteticamente exitosa!

 Peças da marca Insecta Shoes (Foto: Divulgação | Insecta Shoes)


Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros títulos.

Texto publicado originalmente no Portal A Tarde, Coluna Pensando Moda.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O AMOR NÃO TEM NADA A VER COM A IDADE


O texto, de José Saramago, foi publicado pela revista Máxima há exatos 27 anos e certamente foi escrito bem antes. Mas permanece atual e interessante.

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O ASSASSINO ERA O ESCRIBA




Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Paulo Leminski (escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor)